“O presidente Lula é o único líder capaz de unir o continente”

Foi o que disse Keiko Fujimori, da direita, que toma posse como presidente nesta terça-feira. A relação bilateral deverá ser “pragmática”. Brasil e Peru quase 200 anos de relação diplomática

Keiko FujimoriCrédito: Reuters / Dall-E

Quando ainda era candidata à Presidência, Keiko Fujimori reuniu os embaixadores dos países da América Latina, entre eles o embaixador do Brasil, Clemente de Lima Baena Soares, e disse publicamente, como contou à reportagem um dos presentes: “Diferenças ideológicas à parte, o presidente Lula é o único líder da América do Sul capaz de unir o continente”.

Keiko, da direita tradicional, está sendo empossada, nesta terça-feira (28), como presidente do país para um mandato de cinco anos e com uma série de desafios após ter sido eleita em uma votação apertada, com diferença de apenas 50 mil votos que chegaram principalmente do exterior, e depois da queda em série de líderes peruanos nos últimos dez anos.

Desafios

Neste período, alguns dos presidentes ficaram apenas meses no cargo. Aqui nas ruas de Lima, capital do país, seus eleitores comemoram sua chegada ao poder, após 4 disputas eleitorais. No entanto, foi possível ouvir também a insatisfação do eleitorado que preferia a eleição do ex-candidato Roberto Sanchez, que recebeu forte votação nas regiões mais pobres do país, como o centro e o sul, na fronteira com a Bolívia, do território peruano. “Não acredito que ela tenha sensibilidade social para entender nossas necessidades. Lima é rica, mas depende da produção que vem do centro e do sul do país que é paupérrimo”, disse a comerciante Luz Ampudia, que é do departamento de Páscua e mora na capital peruana onde vende artesanato. Já o economista Carlos Aquino, professor da Universidade Nacional Maior de São Marcos, acha que há motivos para otimismo porque o país tem recursos, porém deverá saber distribuir esta riqueza e especialmente para as regiões mais castigadas pela desigualdade.

Pragmatismo e ampliação com o Brasil

Segundo analistas e fontes diplomáticas, Keiko buscará uma relação “pragmática” com o Brasil, reconhecendo a importância do país por suas dimensões políticas e econômicas e que é vizinho do Peru. Os dois países completam 200 anos de relações diplomáticas em 2027 e a expectativa, do lado do Brasil, é que Keiko possa intensificar a relação bilateral abrindo mais espaço para os investimentos brasileiros no país. Os dois países assinaram, há dez anos, o “Acordo de Ampliação Econômico-Comercial” entre Peru e Brasil (AAEC), para ampliar a relação em setores como investimentos, compras governamentais e serviços. No ano seguinte, em 2017, o Congresso brasileiro aprovou o acordo. Mas do lado peruano o entendimento ainda não foi ratificado e no governo brasileiro esperam que ele saia do papel no governo Keiko.

As promessas e a economia peruana

Keiko foi eleita prometendo “mão de ferro” contra a criminalidade, geração de empregos e maior inserção peruana no cenário internacional. País banhado pelo oceano Pacífico, o país tem a China como seu principal sócio comercial. Os dois países têm uma relação histórica que começou no século dezenove. “As exportações estão crescendo a cada ano. E devem bater novo recorde em 2026. A inflação é baixa, mas nosso desafio é a instabilidade política, depois da queda de tantos presidentes (oito presidentes nos últimos dez anos). Mas Keiko tem o partido mais sólido do país, que é Força Popular e não deverá ter problemas para aprovar seus projetos no Senado. Na Câmara, já é mais complicado”, disse Aquino.

Posse e Trump

O governo brasileiro é representado na posse de Keiko pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. O presidente Lula não participa. Entre os presidentes presentes na cerimônia estão Javier Milei, da Argentina, José Antonio Kast, do Chile, Daniel Noboa, do Equador, Santiago Peña, do Paraguai, Rodrigo Paz, da Bolívia, além do rei da Espanha. A posse é realizada na data da independência peruana da colonização espanhola e – curiosamente – no dia do aniversário do ex-presidente Alberto Fujimori, pai de Keiko e que provoca o forte sentimento de ‘antifujimorismo’ no país. Desta vez, Keiko não visitou a tumba do pai, como costuma fazer anualmente. Ao mesmo tempo, à exceção de Milei, como observaram fontes diplomáticas dos países da região que conversaram com a reportagem, os demais presidentes não pretendem o distanciamento do Brasil, pelo reconhecimento da importância do país, maior país da América Latina, apesar das simpatias e acordos com o governo Trump.

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