Mercadante: minerais estratégicos são oportunidade para uma nova fronteira de desenvolvimento industrial do Brasil

Durante fórum sobre mineração, em Brasília, presidente do BNDES destaca a importância de ampliar investimentos, agregar valor à produção mineral e fortalecer cadeias industriais estratégicas

Aloizio MercadanteCrédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil

 O Brasil tem uma oportunidade histórica de ampliar sua participação na mineração mundial e, ao mesmo tempo, transformar sua riqueza mineral em uma alavanca para a industrialização. Essa é a avaliação do presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante, durante palestra no Fórum Destravando o Potencial da Mineração no Brasil, realizado nesta terça-feira (18), em Brasília (DF), pela Editora Globo.

Para Mercadante, o desafio do país é superar uma visão exclusivamente voltada à exportação de minério e avançar na agregação de valor, especialmente em minerais críticos, estratégicos e terras raras. Segundo ele, o Brasil reúne condições para se tornar uma das principais fronteiras de expansão da mineração mundial, em um momento de profundas transformações tecnológicas e geopolíticas. “O nosso desafio não é mais nos vermos apenas como exportadores de minério. Minerais estratégicos e minerais críticos são uma oportunidade para pensar mais valor agregado e a relação com a indústria”, afirmou.

O presidente destacou que o BNDES está ampliando sua atuação no setor para apoiar não apenas a produção mineral, mas o desenvolvimento de toda a cadeia de valor. A estratégia inclui o financiamento de projetos relacionados a minerais críticos, novas tecnologias e segmentos industriais associados, como baterias e tecnologias de transição energética. “Queremos industrializar essa cadeia de valor, preencher as lacunas que temos no Brasil e construir uma relação mais forte entre mineração e indústria”, disse.

Entre os segmentos considerados estratégicos, Mercadante destacou cobre, lítio e, especialmente, terras raras. Na avaliação do presidente do BNDES, o controle da produção e do processamento desses minerais tem adquirido importância crescente na economia global, em razão de sua utilização em tecnologias avançadas, eletrificação, transição energética e indústria de alta tecnologia. “Temos que entrar em cobre e temos que olhar terras raras. É um gigantesco desafio”, afirmou.

Mercadante lembrou que o Brasil possui reservas relevantes de diversos minerais estratégicos, mas ainda precisa ampliar sua capacidade de processamento e transformar esses recursos em produtos de maior valor agregado. Para ele, o país precisa avançar de uma estratégia baseada na exportação da matéria-prima para uma atuação que contemple etapas industriais posteriores. “Nós não temos que só produzir minério. Temos que produzir também as baterias, as células das baterias, e construir uma cadeia de valor que gere valor agregado”, afirmou.

A mudança ocorre em um cenário de forte disputa internacional por minerais críticos. Segundo Mercadante, países e grandes empresas estão buscando assegurar o acesso a insumos essenciais para novas tecnologias, o que cria uma janela de oportunidade para o Brasil.

BNDES amplia apoio a novos projetos

O BNDES já vem estruturando instrumentos para ampliar a entrada de novos agentes no setor mineral. Mercadante citou o fundo de investimento em participações (FIP) estruturado em parceria com a Vale, com R$ 2 bilhões destinados a apoiar novos players da mineração. A chamada realizada pelo fundo recebeu 56 projetos, que representam uma demanda potencial de R$ 57 bilhões em crédito. Segundo o presidente do Banco, 12 projetos já estão em estágio avançado de negociação, somando cerca de R$ 9 bilhões.

A atuação do BNDES se insere em uma estratégia mais ampla de fortalecimento da capacidade produtiva brasileira. Mercadante ressaltou que o Banco também está apoiando a transformação tecnológica da indústria automotiva, incluindo investimentos em veículos híbridos e flex, além de acompanhar investimentos em data centers e inteligência artificial.

O presidente do BNDES destacou o potencial do minério de ferro de alto teor produzido no Brasil, que pode contribuir para a transição dos tradicionais altos-fornos para tecnologias siderúrgicas de menor emissão, incluindo fornos elétricos. “Eu acho que o minério de ferro é a alternativa do Brasil. É o minério de ferro de alto teor. Só nós temos esse minério disponível em volume”, afirmou. A avaliação é que a competitividade futura do setor dependerá não apenas do volume exportado, mas também da capacidade de oferecer produtos compatíveis com uma siderurgia mundial em processo de descarbonização.

Financiamento e fortalecimento de empresas nacionais

Mercadante também ressaltou a importância da atuação do BNDES no fortalecimento de grandes empresas brasileiras e de novos empreendimentos do setor mineral. Segundo ele, o Banco tem uma longa trajetória de atuação na mineração e deve voltar a desempenhar papel relevante na construção de projetos estratégicos para o futuro do país. “O BNDES está na mineração desde os anos 1970. Nós não podemos olhar o futuro do Brasil e o futuro da mineração se os grandes players, as grandes empresas nacionais, não forem fortalecidos”, afirmou.

Para o presidente do Banco, a mineração deve ser entendida não apenas como fonte de divisas, mas como componente de uma estratégia de desenvolvimento industrial. O objetivo é aproveitar a disponibilidade de recursos naturais para criar novas cadeias produtivas, ampliar a inovação e aumentar a produtividade da economia brasileira.

Segundo ele, a expansão da mineração precisa estar associada a padrões elevados de responsabilidade ambiental, transparência e relação com as comunidades. Citou iniciativas do BNDES voltadas à restauração florestal, que já somam R$ 14 bilhões em financiamentos e investimentos e preveem o plantio de cerca de 350 milhões de árvores nativas no país.

Para Mercadante, a combinação entre desenvolvimento mineral, proteção ambiental, transparência e inovação tecnológica é fundamental para que o Brasil possa aproveitar a janela de oportunidade aberta pela crescente demanda mundial por minerais estratégicos.

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