Pernambuco vive o começo de ano mais violento desde muito tempo

Violência em Pernambuco – Thiago Lucas

Por Ana Maria Franca – Coordenadora do Instituto Fogo Cruzado em Pernambuco

Pernambuco vive o começo de ano mais violento desde muito tempo. Não podemos dizer que é o pior da história do estado porque não temos dados de décadas atrás. Mas podemos garantir uma coisa: na nossa série histórica, que conta com anos completos a partir de 2019, NENHUM mês de janeiro foi tão perigoso e letal quanto janeiro de 2024.

Nós do Fogo Cruzado nos espantamos quando acessamos a base de dados de Pernambuco e descobrimos que a região metropolitana do Recife teve 205 baleados em janeiro. Isso dá, em média, quase 7 vítimas por dia. É muita coisa. Foram 147 mortos e 58 feridos nos primeiros 31 dias do ano, em 178 tiroteios.

Como comparação, em janeiro de 2023 foram 116 mortos e 40 feridos, total de 156 baleados, em 147 tiroteios. Números também altos, mas que sequer encostam no que aconteceu neste começo de ano.

Também para efeito de comparação, enquanto contabilizamos 184 baleados na Grande Recife, nas outras regiões metropolitanas nas quais o Fogo Cruzado atua os números foram: Rio de Janeiro, 104 baleados; Bahia, 153 e Pará, 52.

A violência armada não aumenta do nada. Ela é consequência de omissões, excessos, políticas públicas insuficientes. O Pacto Pela Vida, antigo plano de segurança pública de Pernambuco, foi elogiado durante anos, mas ainda que tenha apresentado redução em alguns índices, nunca conseguiu manter o estado abaixo da média nacional da taxa de homicídios.

Isto posto, ao longo dos anos trabalhando na região metropolitana do Recife percebemos haver características próprias na dinâmica da violência armada que são diferentes de outras regiões, como o Grande Rio e Salvador e região metropolitana.

No Grande Recife há muitas mortes dentro de casa, há uma proporção muito alta de vítimas em relação aos tiroteios — o que significa que existem alvos certos. E havia poucos tiroteios em ações e operações policiais. Havia.

Em 2023, foi surpreendente o aumento da violência policial. Foram 99 tiroteios em ações policiais, com 68 mortos e 45 feridos, o que significou um crescimento de 66% no número de baleados. A violência policial ainda representa pouco no total dos tiroteios em Pernambuco (5% de todos os disparos em 2023 foram em ações policiais), mas o aumento no número, além de deixar a população mais em risco, tensiona o clima, aumenta a sensação de insegurança e chama a atenção para uma urgência: um plano de controle da letalidade policial.

O estado é importante na rota nacional e internacional do tráfico de drogas, vive a expansão de grupos armados, especialmente no Litoral Sul, tem casos notáveis de corrupção policial, como desvio de armas, e agora vê um aumento dos tiroteios em ações e operações policiais.

Estado fundamental na história da construção da política e da democracia no Brasil, Pernambuco poderia ser também a luz para um novo modo de fazer segurança pública, focada na dignidade e na preservação da vida da população. Mas o que foi feito até agora é insuficiente. É preciso boa vontade política, estratégias baseadas em evidência e transparência nos dados. O presente assusta. O futuro precisa ser melhor.

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