Caminhoneiros realizaram paralisações em trechos de rodovias em ao menos 14 estados nesta quarta-feira (8), um dia após os atos de raiz golpista convocados pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Sem apoio formal de entidades da categoria, os motoristas são alinhados politicamente ao governo ou ligados ao agronegócio.

No fim da tarde, por volta das 17h30, haviam sido registrados pontos de concentração na Bahia, no Espírito Santo, Paraná, Maranhão, Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Santa Catarina, de acordo com o Ministério da Infraestrutura.

Também houve bloqueios no Rio de Janeiro e em Roraima, onde um grupo de caminhoneiros autônomos interrompeu o tráfego na BR-174, estrada que é a única ligação do estado com o resto do país. Caminhoneiros interditaram as duas vias por volta de 16h, na altura do quilômetro 482.

A Polícia Rodoviária Federal de Roraima informou à reportagem que está no local para monitorar a manifestação. Segundo o jornal Folha de Boa Vista, os caminhoneiros afirmam que o bloqueio é em apoio ao presidente Bolsonaro e contra o aumento nos preços dos combustíveis, e que irão manter a estrada fechada enquanto “o povo” quiser.

O ministério, em boletim divulgado às 20h30, ampliou para 14 o número de estados com bloqueios, mas não citou em quais deles houve paradas.

“Nas últimas horas, dois pontos com bloqueio total foram registrados no Rio Grande do Sul e estão sendo desmobilizados pela PRF [Polícia Rodoviária Federal]”, informou a pasta.

Em Santa Catarina, a PRF comunicou no fim da tarde desta quarta bloqueio em 22 pontos, atingindo praticamente todas as regiões do estado. A situação já começou a afetar a distribuição de combustíveis.

Até as 17h, cerca de 30 postos da região norte de Santa Catarina, onde fica Joinville, a cidade mais populosa do estado, relataram falta de gasolina e diesel nas bombas, segundo levantamento do Sindipetro-SC (Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo de Santa Catarina).

A região é abastecida por distribuidoras em Guaramirim e Itajaí, cidades com pontos de paralisação de caminhoneiros, e os postos estavam sem receber combustíveis desde a manhã desta quarta.

Pontos da BR-163, principal rodovia para escoamento de grãos do Centro-Oeste, também concentravam caminhoneiros no fim do dia, o que deixou em alerta empresas ligadas à exportação.

A Anec (Associação Nacional dos Exportadores de Cereais) disse à Reuters que os protestos não afetaram o escoamento. A administração portuária de Paranaguá (PR) afirmou que não havia sinais de caminhoneiros atrapalhando o fluxo de cargas para o porto durante a tarde. O IBP (Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás) disse que acompanha os “bloqueios pontuais”.

Paranaguá foi uma das cidades do Paraná com registro de bloqueios, que também ocorreram em Maringá e em Paranavaí, nas regiões norte e nordeste do estado.

No Rio de Janeiro houve atos em Campos dos Goytacazes, no km 75 da BR-101, e em Seropédica, onde os manifestantes pediam para a polícia para manter o protesto até esta quinta-feira (9).

Segundo a polícia, eles ocupavam uma faixa de 1,5 km de uma via lateral à BR-465.

Segundo o Ministério da Infraestrutura, os protestos “não se limitam às demandas ligadas à categoria”. As principais pautas dos caminhoneiros hoje são preço do combustível e piso mínimo do frete. “Não há coordenação de qualquer entidade setorial do transporte rodoviário de cargas”, afirmou a pasta. Entidades de caminhoneiros corroboram essa posição.

“Não tem pauta caminhoneira na mobilização, é movimento ideológico”, diz Joelmis Correia, do Movimento GBN (Galera da Boleia da Normatização Pró-Caminhoneiro). Segundo ele, há “neutralidade da categoria”, para que cada motorista decida se quer protestar em apoio ao governo ou não.

“Não há muito o que comemorar.”

Na véspera dos atos bolsonaristas, o caminhoneiro Marcos Antônio Pereira Gomes, conhecido como Zé Trovão, que está foragido, publicou um vídeo nas redes sociais convocando manifestantes ao protesto em Brasília. Segundo motoristas ouvidos pela reportagem, ele tem alto poder de mobilização na categoria.

Trovão defendeu o impeachment de ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) e desafiou o ministro Alexandre de Moraes a prendê-lo.

Moraes decretou a prisão do caminhoneiro na sexta-feira (3). Ele é acusado de promover a incitação de atos violentos contra o Congresso Nacional e o STF.

Além do apoio ao governo, ruralistas tem três ações diretas de inconstitucionalidade no STF que ainda não foram julgadas pela corte. Elas questionam a política nacional de piso mínimo, implementada por meio de lei durante o governo Michel Temer (MDB), após a greve de 2018.

Desde antes de 7 de Setembro, a categoria já demonstrava divisão nos grupos de WhatsApp. As lideranças de movimentos organizados afirmaram que não iriam convocar caminhoneiros, como a Abrava e o CNTRC (Conselho Nacional do Transporte Rodoviário de Cargas).

Mesmo assim, muitos motoristas ligados a transportadoras ou apenas apoiadores de Bolsonaro decidiram aderir. Caminhoneiros ligados ao agronegócio permaneciam em Brasília até a noite desta quarta.

No dia 3 de setembro, o CNTRC enviou ofício ao STF declarando “repúdio aos atos antidemocráticos, sobre as manifestações de ódio oriundas das publicações nas plataformas digitais que se agravaram com a organização para o dia 7”.

Em nota, a PRF afirmou que a tendência de fim da mobilização é à 0h de quinta (9).

“Ao todo, já foram debeladas 117 ocorrências com concentração de populares e tentativas de bloqueio total ou parcial de rodovias durante as últimas horas”, disse a PRF em nota que foi reproduzida pelo Ministério de Infraestrutura.